terça-feira, 14 de maio de 2013

Texto sobre Neto Hadad


Leitura, Neto Hadad e Lamparinas Acesas

     No último final de semana, conversei bastante com Neto Hadad sobre a força da boa Literatura, capaz de nos arrebatar, reanimando nossa alma lírica. Um bom papo, regado com a genialidade do Fernando Pessoa e seus heterônimos. Estávamos adiantados no diálogo quando ele apresentou-me o romance ‘Os Luminares Tchecos’ psicografado por Wera Krijanowskaia, que apresenta como protagonista Jan Huss, um sacerdote precursor da Reforma Católica.
     Gosto do tema e respeito profundamente os seguidores da doutrina de Allan Kardec. São geralmente grandes figuras humanas, transcendentes em algumas ações. Toco no assunto para reafirmar a generosidade do jornalista Neto Hadad, homem de tantas e tão altas virtudes, atuante em vários veículos de comunicação pelo Brasil, figura fulcral da última eleição municipal de Santa Inês – tão sofrida, difícil, apaixonante mesmo!
     Mas, quero mesmo é contar o seguinte causo. O jornalista emprestou-me para minha satisfação o livro de crônicas ‘ Éramos Felizes e não Sabíamos’ de Bernardo de Almeida, um intelectual da mais alta estirpe. Como dissera Ubiratan Teixeira: “poeta, dono de infinitos recursos; político ligado ao sonho coletivo, cronista dos maiores”. Eu tinha o desejo em mim de ler esta obra, porque o Nauro Machado faz reverência, total reverência a esses textos, que são uma descrição da provinciana São Luís.
     Meus leitores, tive a mesma sensação da menina do conto Felicidade Clandestina da Clarice Lispector ao ler as notas da orelha. Aquela vontade de não mais abandonar a leitura até terminá-la completamente. O livro é nostálgico do preâmbulo ao desfecho. Por exemplo, O Ceguinho da Rua de Nazaré narra a figura de um cego poético, encantador, dono de uma flauta inesquecível. O autor conseguiu dar um foco de luz, num personagem comum, mostrando-o cheio de riqueza - as crônicas servem para iluminar a vida, diz uma voz dentro de mim, qualquer hora acredito nisso.
     É boa a sensação de leitor realizado, com o semblante de domingo de carnaval. Agradeço de verdade ao Neto Hadad pelo presente, assim como pelas lamparinas acesas nas cavernas da minha sensibilidade. Valeu mesmo, camarada!

Paulo Rodrigues
    

      


Poema sobre o tema amoroso - feito a pouco tempo e musicado por Vicente Telles





ÓRBITA

Chegou assim
sem me avisar
sem me pedir
pensou logo amar
ou apenas curtir.

Buscou todos os desejos
palavras carregadas de gozo
me ganhou com um beijo
de água e fogo.

Chegou e agora
não tem mais como partir
porque o seu destino
é orbitar dentro de mim.

Paulo Rodrigues



Educadores: É bom Refletir.


Educadores: Destruidores, ou Construtores de Sonhos?

     Voltei ao romance Vidas Secas de Graciliano Ramos, por conta de um fato ocorrido comigo não faz muitos dias. Mas deixe-me primeiro situar esta narrativa clássica do grande jornalista, cronista, político de Alagoas. Vidas Secas conta a história de uma família de retirantes, fugindo da seca, da fome, da miséria. Há no enredo uma comparação interessante. A família toda vai assumindo comportamentos animalescos, pois falta a eles o universo de linguagem, por outro lado a cachorra Baleia pensa, sente e constrói pensamentos como um ser humano. O habilíssimo romancista nos mostra que a linguagem nos humaniza, sem a linguagem somos animais. 
    Meus queridos leitores, fui buscar esta imagem como pano de fundo para o meu texto, porque encontrei em minha caminhada educacional um aluno com dificuldades de se comunicar, incapaz de responder aos questionamentos, tímido completo, extremamente agressivo, assim como pessimista. Achei logo de saída que os problemas todos dele estavam ligados ao desenvolvimento lingüístico insatisfatório. Visitei a casa do aluno-pescador e percebi na falta de comunicação dos pais a animalidade ululante.
   Em seguida, o chamei para a beira do Pindaré, tentei esticar o diálogo, aumentei o tom de voz, contei causos interessantes acontecidos com diversas pessoas ao longo da história humana, que superaram suas dificuldades. Dei exemplos. Ele sentiu em sua alma a possibilidade da transformação. Reagiu com a seguinte exposição:
    - Tenho medo de pronunciar as palavras desde o dia que papai disse para eu ficar calado. A professora Antonia da Chica batia em mim e nos meus colegas quando conversávamos. Eu me tranquei em mim. Converso bastante com um amigo que mora em meu ser. Sinto-me à vontade com ele, no entanto com as pessoas do mundo real sou sempre agressivo, não tenho outra forma de me defender dos meus medos e traumas. Acho mesmo que sou um bicho doido como ela dizia.
   Ouvi atentamente as revelações jogadas na linha discursiva do meu aluno, pensei em Vidas Secas ali tão atual. Percebi a capacidade que os educadores têm de destruir, ou reconstruir sonhos. Por fim, encerro com uma frase de Nelson Mandela: “Se você falar com um homem numa linguagem que ele compreende, isso entra na cabeça dele. Se você falar com ele em sua própria linguagem, você atinge o coração dele.”

Paulo Rodrigues (Professor e Poeta)

Santa Inês, O Poeta e os Vendavais


SANTA INÊS, O POETA E OS VENDAVAIS


     Ponta da Linha era só um ponto. A última ponta da linha de ferro que levava o doce da cana para em açúcar tornar-se, no Engenho Central. Quando alguns heróis resolveram aqui reunir algumas famílias, recebeu o nome de Conceição - que apesar de lírico não ficou. Em seguida, a senhora Maluf passando por grandes dificuldades fizera uma promessa, consagrando assim, Santa Inês como padroeira do povoado. O nome pegou. Pegou bem!

     A quase "santinha" cresceu muito em pouco tempo de existência. Mais ou menos dez prefeitos construíram, e principalmente, melhoraram a imagem da cidade. Cinco vereadores marcaram a Câmara  Municipal: Edmilson Gonçalves( tribuno agressivo, competente); Pedro Filho( o maior orador do vale do Pindaré); Pedro Tavares( o vereador da verdade irônica, humorística); Orlando Oliveira( o mais corajoso de todos) e Orlando Mendes( o amigo e incentivador cultural).

     Muitos compositores, pintores, músicos, assim como, poetas nascidos ou recriados nessa urbe foram destaques no cenário nacional - aliás alguns ainda o são. Esses artistas receberam a benção da Militana, dançaram ao som incomparável do boi do Lobato, mamaram litros de cachaça na Eliete e foram nutridos com o caldo de tapiaca, comprada logo ali, na Feira da Barreirinha.

    Dentre esses artistas todos destaco, nessa crônica de aniversário, Antônio José Gomes Silva, compositor admirável, poeta ( plantador das roças imaginárias ) tal qual José Chagas quando semeia a poesia: "muito cedo plantei arroz, mas o arroz que mais crescia era o imaginário". Antônio José foi o poeta de maior grandeza a cantar nossa terra. Seus versos encantavam-nos, elevava nossos sonhos, faziam-nos acreditar em nossa "mitologia", analisar nossos paradoxos e principalmente criticar a realidade injusta.

    A cidade, plantador de palavras, completa quarenta e seis anos, de parabéns estamos todos que a procuramos entendê-la, com a sensibilidade e a força das nossas palavras. Encerro parodiando uns versos de sua lavra que enaltecem a nossa garra: As pessoas que nascem em Santa Inês serão sempre vencedoras de vendavais.


Paulo Rodrigues (escritor e poeta)

segunda-feira, 13 de maio de 2013

O ENCONTRO COM O POETA



O ENCONTRO COM O POETA

    Semana passada estive em São Luís para comprar alguns livros, com a intenção de enriquecer a disciplina Literatura Brasileira, que fui convidado a ministrar no Programa de Qualificação de Docentes da Universidade Estadual do Maranhão. Chegando à Ilha do Amor emocionei-me logo com os pregões dos vendedores do São Cristovam. Entendi imediatamente as palavras do José Chagas: “o vento leva a poesia por todos os cantos da cidade.”
    Desci como de costume no terminal rodoviário. Quando me preparava para adentrar aquele moderno coletivo, várias pessoas tomaram minha frente. Percebi atrás de mim, bem ali pertinho, um septuagenário de barba branca, com olhos que refletiam a grande emoção da existência. O humilde senhor levava consigo  uma sacola cheia de livros e manuscritos. O encarei algumas vezes tentando reconhecer aquela singela fisionomia. Alguns segundos depois, percebi que se tratava de um dos maiores poetas vivos do Brasil. Para não deixar dúvida, perguntei:
     - Você é o Nauro Machado, não é?
     - Espero que seja. De repente o mundo globalizado está tão confuso que eu deixa de ser eu. Sabia, meu rapaz! Disse o meu irmão de ofício.
     Apaixonei-me ainda mais por aquele lavrador das palavras, escultor de grandes versos, e o segui para embriagar-me com aquela filosofia, com aquelas utopias dignas de inspirar qualquer mortal. Voltei a indagar:
     - O poeta vai para Pasárgada, levando o grande tesouro?
     - Vou degustar os casarões de minha cidade, conversar com meus pares sobre as Letras, bons autores, e principalmente ler na praça mais soturna que eu já conheci. Lá vou-me embora para dentro de mim mesmo, consigo então arrancar poesia da brisa. Afirmou com mais simpatia o Nauro.

    Terminou de relatar seu itinerário com paciência como se falasse a um irmão. A mim restou a certeza que encontros casuais existem. Acho que se ele não tivesse descido na segunda parada eu o invejaria mais, muito mais ainda.

Paulo Rodrigues
         


Barrozo : Um Caçador de Utopias



Barrozo: Um Caçador de Utopias
“A poesia é uma ilha cercada de palavras por todos os lados.”

     Acompanhei  um homem de muitas histórias, muitas travessuras pela existência, um mito agnesiano, durante uma entrevista concedida à TV Eldorado, na segunda-feira. Atende pelo nome comum,  Raimundo Barrozo Sousa Braga, pai de família honesto, homem polêmico, com uma pitada forte de irreverência nas veias. Envolveu-se desde cedo com o universo encantador da Literatura, leu todos os clássicos, ficou íntimo da poesia e tornou-se um fazedor de versos, tal qual  seu ‘ magister magnus’ Patativa do Assaré.
    Disse ao apresentador do jornal, que assumira seu talento com as letras depois de sair incólume de um derrame, e principalmente porque, Nauro Machado e José Chagas insistiram, ao ponto de convencê-lo que ele é realmente poeta. Citou um trecho do poema IRREVERENTE durante a gravação: “Polêmico, excêntrico, antiético, irreverenete/ para os mais taxativos: sou intransigente/ não aceito cabestros, não me curvo a reis/ nem devo obediência a senhores.” Fiquei contente com a ironia fina do meu novo confrade. Olhem , meus queridos leitores, só os homens de caráter forte usam essa figura de linguagem com elegância.
     Por falar em ironia, identifiquei na linha discursiva do Barrozo uma dúvida existencial forte em relação à vida, assim como em relação ao divino, assemelhando-se muito ao poeta angelical, que não acreditava nem mesmo no amor. Os dois afirmam nas entrelinhas: “o amor e a humanidade são duas grandes mentiras. Só a morte é real  .”

    Ele está com uma antologia pronta para publicação cujo título é: IRREVERÊNCIA… OU QUASE; POESIA… TALVEZ. Nesse trabalho saído das mãos de um roceiro-poeta vislumbrei forte crítica social, um ceticismo enraizado, uma linguagem bem elaborada, até quando parece ser singela.
    Li quase todas as criações poéticas desse ousado membro de nossa confraria. Senti depois de alguns encontros  a verdade nua em suas palavras, sei que ele carrega o escudo da razão, da verdade (sem nenhuma vaidade), por isso bateu em mim uma alegria enorme ao falar do amigo, do poeta. Reconheço nele mais um ser carregado de beleza, porque sabe caçar utopias num mundo onde é proibido sonhar.

Paulo Rodrigues (Professor e Poeta)
     
   
 

SOMENTE SOLO: Um CD de Sucesso


Somente Solo: Um CD de Sucesso

     O Secretário de Cultura de Santa Inês, José Carlos Daffé fez uma nova tiragem de cinco mil cópias do cd ‘Somente Solo’, que fora lançado em 2004, aumentando a popularidade e o sucesso desse trovador pós-moderno do Maranhão. Um trabalho de pesquisa sério, que recupera o cheiro de boa música, de belas letras da Música Popular Maranhense, com um repertório escolhido com sabedoria. Este grande artista de nossa urbe vem espalhando suas canções, e as de outros tantos bons compositores do nordeste pelo Brasil.
    Nós todos, que sabemos da importância cultural da ‘santinha’ acreditamos e admiramos o talento desse artista coetâneo, que representa bem nossa alma de ‘seres líricos’, tão singela. Digo isso, pois acompanho a construção musical desse amigo de outrora e sei de sua capacidade linguística, dos malabarismos metafóricos capazes de encher a vida de alegria, sempre que o escuto cantar. 
    Fico fascinado pela interpretação da canção Meu Silêncio, que aliás é a preferida do Daffé nesse álbum: “Porque, tem que ser assim/ Se eu pra beijar você/ Você tem que gostar de mim/ Não sei/ O que vou fazer/ Olhando teu gesto frágil/ Falei palavras sem sair de mim/ Eu posso me arrepender do que eu disse/ Menos do meu silêncio/ Transo com a lua pensando em você/ Sob a luz de um incenso/ Não sei, o que vou fazer/ Não quero é mais falar/ Segredos como a dor/ Que carrego em mim/ O amor é uma ilusão sem a qual/ Não podemos viver”.
     Preciso destacar também, o design gráfico, Raimundo André que deu um show na produção da capa, como sempre mostrando seu imenso talento, além de sua capacidade criativa. Na verdade, o disco é excelente do início ao fim. Falo isso como um bom degustador da música de qualidade produzida no mundo. Meus leitores, vocês irão sentir prazeres infinitos ao ouvir Somente Solo.
      Encerro, usando as palavras de Samuel Howe: “Quando se ouve boa música fica-se com saudade de algo que nunca se teve e nunca se terá”.  É exatamente a sensação que fica em mim quando escuto os acordes do DAFFÉ.
Paulo Rodrigues (Professor e Poeta)