Educadores:
Destruidores, ou Construtores de Sonhos?
Voltei ao romance Vidas Secas de Graciliano Ramos, por conta de um fato
ocorrido comigo não faz muitos dias. Mas deixe-me primeiro situar esta
narrativa clássica do grande jornalista, cronista, político de Alagoas. Vidas
Secas conta a história de uma família de retirantes, fugindo da seca, da fome,
da miséria. Há no enredo uma comparação interessante. A família toda vai
assumindo comportamentos animalescos, pois falta a eles o universo de
linguagem, por outro lado a cachorra Baleia pensa, sente e constrói pensamentos
como um ser humano. O habilíssimo romancista nos mostra que a linguagem nos
humaniza, sem a linguagem somos animais.
Meus queridos leitores, fui buscar esta imagem como pano de fundo para o
meu texto, porque encontrei em minha caminhada educacional um aluno com
dificuldades de se comunicar, incapaz de responder aos questionamentos, tímido
completo, extremamente agressivo, assim como pessimista. Achei logo de saída
que os problemas todos dele estavam ligados ao desenvolvimento lingüístico
insatisfatório. Visitei a casa do aluno-pescador e percebi na falta de
comunicação dos pais a animalidade ululante.
Em seguida, o chamei para a beira do Pindaré, tentei esticar o diálogo,
aumentei o tom de voz, contei causos interessantes acontecidos com diversas
pessoas ao longo da história humana, que superaram suas dificuldades. Dei
exemplos. Ele sentiu em sua alma a possibilidade da transformação. Reagiu com a
seguinte exposição:
- Tenho medo de pronunciar as palavras desde o dia que papai disse para
eu ficar calado. A professora Antonia da Chica batia em mim e nos meus colegas
quando conversávamos. Eu me tranquei em mim. Converso bastante com um amigo que
mora em meu ser. Sinto-me à vontade com ele, no entanto com as pessoas do mundo
real sou sempre agressivo, não tenho outra forma de me defender dos meus medos
e traumas. Acho mesmo que sou um bicho doido como ela dizia.
Ouvi atentamente as revelações jogadas na linha discursiva do meu aluno,
pensei em Vidas Secas ali tão atual. Percebi a capacidade que os educadores têm
de destruir, ou reconstruir sonhos. Por fim, encerro com uma frase de Nelson
Mandela: “Se você falar com um homem numa linguagem que ele compreende, isso
entra na cabeça dele. Se você falar com ele em sua própria linguagem, você
atinge o coração dele.”
Paulo Rodrigues
(Professor e Poeta)
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