terça-feira, 14 de maio de 2013

Educadores: É bom Refletir.


Educadores: Destruidores, ou Construtores de Sonhos?

     Voltei ao romance Vidas Secas de Graciliano Ramos, por conta de um fato ocorrido comigo não faz muitos dias. Mas deixe-me primeiro situar esta narrativa clássica do grande jornalista, cronista, político de Alagoas. Vidas Secas conta a história de uma família de retirantes, fugindo da seca, da fome, da miséria. Há no enredo uma comparação interessante. A família toda vai assumindo comportamentos animalescos, pois falta a eles o universo de linguagem, por outro lado a cachorra Baleia pensa, sente e constrói pensamentos como um ser humano. O habilíssimo romancista nos mostra que a linguagem nos humaniza, sem a linguagem somos animais. 
    Meus queridos leitores, fui buscar esta imagem como pano de fundo para o meu texto, porque encontrei em minha caminhada educacional um aluno com dificuldades de se comunicar, incapaz de responder aos questionamentos, tímido completo, extremamente agressivo, assim como pessimista. Achei logo de saída que os problemas todos dele estavam ligados ao desenvolvimento lingüístico insatisfatório. Visitei a casa do aluno-pescador e percebi na falta de comunicação dos pais a animalidade ululante.
   Em seguida, o chamei para a beira do Pindaré, tentei esticar o diálogo, aumentei o tom de voz, contei causos interessantes acontecidos com diversas pessoas ao longo da história humana, que superaram suas dificuldades. Dei exemplos. Ele sentiu em sua alma a possibilidade da transformação. Reagiu com a seguinte exposição:
    - Tenho medo de pronunciar as palavras desde o dia que papai disse para eu ficar calado. A professora Antonia da Chica batia em mim e nos meus colegas quando conversávamos. Eu me tranquei em mim. Converso bastante com um amigo que mora em meu ser. Sinto-me à vontade com ele, no entanto com as pessoas do mundo real sou sempre agressivo, não tenho outra forma de me defender dos meus medos e traumas. Acho mesmo que sou um bicho doido como ela dizia.
   Ouvi atentamente as revelações jogadas na linha discursiva do meu aluno, pensei em Vidas Secas ali tão atual. Percebi a capacidade que os educadores têm de destruir, ou reconstruir sonhos. Por fim, encerro com uma frase de Nelson Mandela: “Se você falar com um homem numa linguagem que ele compreende, isso entra na cabeça dele. Se você falar com ele em sua própria linguagem, você atinge o coração dele.”

Paulo Rodrigues (Professor e Poeta)

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